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Carlos Guimarães

Opinião

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Publicado em 18/08/08

A claustrofobia de um mundo insano


Carlos Guimarães Coelho

Um sentimento claustrofóbico toma conta do espectador no espetáculo “Um rufião nas escadas”, texto genialmente concebido pelo inglês Joe Orton, em cartaz na cidade com encenação de Cássio Machado, Ivens Tilman e Maria Amélia Fernandes. Nada que incomode ao ponto de querer sair no meio da peça. Nem se trata de uma claustrofobia espacial.
A inquietude que o espetáculo provoca reside em acompanhar de perto, de dentro da cena (a leitura e fantasia de cada observador pode até levá-lo intimamente a participar da trama), uma situação de suspense e dramática, que coloca o público em um contexto quase de cumplicidade, penetrando na misteriosa, vulgar, asquerosa e absolutamente comum mentalidade de personagens fortes, visceralmente defendidos por três dos melhores intérpretes da cidade.

Ao ler o texto, há cerca de um ano, entendi que só existiam duas possibilidades para qualquer montagem que surgisse a partir dele: o fiasco ou o sucesso, sem nenhum meio termo. É o tipo de criação dramatúrgica que exige maturidade cênica dos envolvidos.  Caso contrário, seria um espetáculo enfadonho e provocaria não a claustrofobia, mas a ojeriza.

Quem está habituado a ver este elenco em espetáculos humorísticos, infantis ou empresariais, pode se surpreender com a dramaticidade desta montagem. Mas, é ali, no drama e no suspense, que eles mostram as reais potencialidades de interpretação. Maria Amélia Fernandes como a ex-prostituta, agora uma frágil e dependente esposa, colecionando recortes da violência de um mundo externo ao qual ela quase não tem acesso, é a representação máxima de uma claustrofobia comum a muitos do mundo real, que recortam dele apenas as suas sensacionalistas manchetes principais.

O marido omisso defendido por Ivens Tilman, indiferente à visível súplica da esposa enclausurada em si mesma, é gélido, insípido, quase inexistente, como muitos que se anulam na comodidade das relações. O tom grave da voz do ator, às vezes sussurrada, sustenta com veemência a fragilidade de uma mente homicida, que parece ir também desaparecendo a cada morte que dispara.

Por fim, para dar cabo à insustentável inquietação das duas personagens, surge o suicida brilhantemente exaurido por Cássio Machado. Com o olhar perambulando pela loucura da perda, o invasor, com sensualidade e devaneios que vêm para ser o turbilhão da monotonia de duas vidas marginais e marginalizadas, torna-se o anseio do espectador. A cada entrada em cena, ele representa a redenção, ou a punição que seja, mas o provável desfecho daquela situação de claustrofobia.

É quase possível adentrar essas três mentes, malignas ou vitimadas por um mundo maligno. Sabe-se lá.  Seriam mentes doentias? Quais então não seriam?  Essa atmosfera de terror e drama só pôde ser criada pelo talento do elenco e pela sensibilidade da diretora, Lavínia Pannunzio, que, além da competente direção, trouxe para a cidade mais um momento de vanguarda, com o formato alternativo comum nas grandes cidades. Sair do espaço natural do teatro e ir para casas, rios, hospitais, presídios, construções é comum em centros urbanos maiores. Movimento bem vindo em uma fase de amadurecimento das artes cênicas na cidade. Por si, o ato representa um passo à frente deste momento. E, portanto, mais um grande mérito da montagem.

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