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Publicado em 21/10/08 O que sobra é um borrão, numa tela apagada Naquela amanhã acordei toda doída. Um sono que me espancou e eu não sentia meus pés. Acordei e fiquei parada olhando para o teto. Poeira para todo lado. Traças comiam meus livros, olhavam pra mim e davam de ombros. As pessoas grandes me viam de fora da casa e tentavam me avisar. Sem exceção. Tinham boas intenções. E eu uma carne amorfa em cima da cama. E as poeiras dançando, aquele livro do Lautrec com as páginas coladas em inglês, meus olhos embaçados em frente às letrinhas, sensação de náusea. O livro e as traças. As cadeiras da mesa de jantar encarando o quadro que eu mandei emoldurar, do cartaz daquele filme, bem antigo. A cama tão grande, e umas manchas nas fronhas, amareladas. Quando ouvi o primeiro ruído, fingi não perceber. O berço que esperou o filho que não veio, balançava sozinho. O armário com as caixas verdes, uma acidez estranha as consumia, eu já não lembrava de nada que coloquei ali, exceto duas coisas: as chaves do seu apartamento e um girassol pintado na madeira. A casa era tão grande. A cama, a janela sem as cortinas, que havia prometido bordar e nunca coloquei de volta no lugar delas, estavam lá, dentro do armário, emboladas. E todos os remedinhos manipulados, em vidrinhos laranja. Todos lá. E levantei da cama, o rangido me assustou, fiquei parada esperando passar. Consegui colocar os pés pra fora do colchão. Crec Crec Crec. Começou pela parede, depois os armários, as estantes, notei e não vi mais nenhuma traça nos livros. Espertas as malditas, fugiram todas. Não pude salvar nada. Eu já não era nada a não ser uma parte dessa colagem que chamam de Arte. Nem aquele souvenir que eu ganhei. Nada.. Corri, e o chão se abriu. Corri tanto que nem percebi. E as pessoas todas de gravata, sensatas, felizes e bem amadas lá de fora, gritando por mim, sem saber meu nome, gritando: Corra rápido. Quando olhei para trás. não vi mais nada. Já não era casa, já não era nada. Eu não era nada, apenas esse amontoado de coisas que já não existe. Tudo terra abaixo. |