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Rafaella Biasi
Eu, hemorragia




Rafaella Biasi cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato.

rafaella_biasi@hotmail.com

 

Publicado em 23/09/08

Verdade de bastidor

Eles se olham, é a primeira vez que realmente se olham depois de anos. Ele ainda se lembra da sensação. Aquela sensação butterflies in the stomach, na horizontal, na cama, depois do sexo blue velvet.  Aquilo não devia existir, ele pensa, aquilo não devia fazer parte de sua cabeça. Um cara tão cerebral, tão...ah foda-se. Mas existiu como portais que nos levam para outros lugares, no sono talvez. E ele tão patético, está ali na frente dela, mudo. Ele se recorda do filme da noite passada – Trainspotting- e como algo pode fazer tão mal em questão de 1h48min. E ela pensa sobre outros milhares do cinema hollywoodiano, aquelas comediazinhas de mamão com açúcar e pensa, que bobagem eu aqui esperando pelo momento mais avassalador da minha vida, e pensa também que seria uma péssima roteirista, porque os bons com certeza não usariam uma palavra tão besta. Ela apaga essas coisinhas chulas da cabeça, e volta o olhar para o copo. E lembra dos primeiros não-diálogos dos dois, e lembra das poucas sílabas trocadas, das pernas tão grandes que ele tem, pernas que ele não acredita ter, mas estão lá, pra pegar ela, de novo, ele engole ela com as pernas, é até antropofágico se você pensar, porque é um movimento em que ele quer comer, pegar seu mojo e cuspir fora. Quer que ela se torne algo que seja parte dele, seja ele, quer um pensamento universal, os dois num só, ele quer que não exista hierarquia de sentidos, que os dois sintam exatamente igual. Você já parou pra pensar, por exemplo, como é o gozo do outro, se é igual ao seu? Exatamente isso que ele sente, podia ser igual, apenas mais um pensamento fugidio, desses que escorrem e param. Inexistem após alguns segundos. Mas que estão lá, que ficam por lá. Tira essa capa que me protege, ele pensa, vamos, você precisa cuspir. Cuspa na cara dela todo esse desconforto e a leve pra casa depois. Goze forte pra ver se você sente de novo aquela carne dentro, putrefata, doente, arrancada com pinça. Fale logo seu imbecil. Acenda esse seu cigarro, sopre esse desengano no ouvido dela, vire as costas e vai. Três palavras, “Não dá mais”, só isso que você precisa. Vire as costas como aqueles cães e corra.

-Preciso dizer algo.

Mãos distantes. Separadas por uma linha imaginária feita com palitos de dente.

-Estou escutando, espere, vou ao banheiro primeiro, termine seu cigarro.

Barulho de pinga-pinga da torneira da pia.

Shhhhhh, silêncio.

Cortinas abertas e você precisa pisar no palco para o primeiro ato. Você precisa tomar partido, você precisa encarar a cena, e tudo parece tão de mentira, você não acredita que precisa passar por aquilo. E essa verdade te mói, você precisa agradecer à platéia, mas não sabe como. E aquela luz te cega e você pensa "isso não pode estar acontecendo, deu branco, esqueci minhas falas". Parece que tiraram você do seu corpo, e no lugar colocaram algodão para preencher o vazio. Isso, algodões e vários fios. Isso, você se torna marionete de pano, a cena não importa mais, que seja triste ou feliz, não depende de você o fim. Você dança um foxtrote "engraçadinho", entretêm a platéia. A luz fraqueja, seus olhos não estão mais ali. Não é você mais ali. Do seu lado talvez contracenando com você um boneco de ventríloquo -o vai e vem da cabeça- regurgitando sons, risadas, sacolejos e aquele olhar irônico. E aqueles algodões te sufocando, fios de serpentina sendo jogados, um circo. Isso, um circo. A peça está confusa demais, parece com um circo. A peça acaba, você não sabe como, os algodões não substituem o frio no estômago, não ainda. E as cortinas se fecham. Você não sabe como abrir os olhos, prefere ficar guardada, bem quieta no camarim.

ttrrrrrrrrrrrrrrr, ranger da porta do banheiro.

Sai logo daí menina, enxuga esses olhos.


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