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Rafaella Biasi
Eu, hemorragia

Rafaella Biasi cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato.
rafaella_biasi@hotmail.com
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Publicado em 02/07/08
Ser brega é o novo preto
A menina não pode mais se apaixonar. Parece que virou pecado, sem direito à redenção. Usa salto alto, fala bem o francês, estudou em colégio de freira. Cortem-lhe a língua se deu no primeiro encontro, se bebeu demais, se levantou a saia em cima do palco.
A menina viaja pra longe, onde os holofotes não a seguem, e onde não existe internet, mas existe praia. Porque pensa: holofote, falar francês e viajar para a Europa não são para qualquer menina.
E a menina pisa em falsete, pisa fundo, pisa pesado. Ela dá chilique dentro dela mesma. Não. Não quero me foder. Não vou pro limbo, vou ficar bem em pé. No equilíbrio das coisas.
Mas a menina não está sozinha, ela carrega junto dela veias, virilha e coração. E ela viaja, e encontra o broto, e a pele fica um pêssego, as pernas mais leves, e nos pés só areia e água salgada. A menina achou a porta, e a destrancou. A chave ela engoliu, e dentro dela, não importa...
O que importa é que apesar do francês, da falta de educação polida e da capela do colégio, ela não pode evitar. Não pode com o peso que ele colocou por cima dela, com seus ombros e sua mão.
A menina volta pra caixa de música e "padam padam", com a poesia na cabeça e um "vai se fuder, estou bem assim, fica longe de mim". Porque isso de aprender a rezar é balela, a menina sabe o que é proibido para um coração comprimido pela razão de toda uma idade, de todos vinte e alguns infernos astrais.
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