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Rafaella Biasi
Eu, hemorragia
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Rafaella Biasi cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato.

rafaella_biasi@hotmail.com

 

Publicado em 13/05/08

Rosa, a freira.

Sentada sozinha no metrô vazio, naquela cidade enorme, ela lembrou dos filmes que a acompanhavam em sua insônia, no Corujão. Aquelas luzes trespassando seu rosto, o barulho esganiçado do metrô parando, e a cena daquele filme em sua cabeça. Rebecca de Mornay nunca esteve tão linda. Aquele aperto constante das pernas, quando algum pensamento hostil ou sacana, invadia a mente e provocava o orgasmo. Rosa nunca soube, mas ela pertencia à ínfima parcela de mulheres que conseguia o maldito orgasmo múltiplo. Para os dela, às vezes, bastava um aperto de mão molhado.

Rosa sempre se sentiu protagonista daquela cantiga de roda. Sempre se punha a chorar. Sempre lhe faziam chorar. Sempre saía estropiada de seus encontros, dos pseudo-romances de portão. E o maldito tremor indecente, as mãos brancas e frias, o calafrio.

Tinha em suas mãos, contados, um por um, todos os fracassos vividos. O fracasso de não tocar mais flauta, de não ter ido à Paris, de não saber cantar direito, de não ter terminado o curso de inglês. Mas o que mais perturbava a mente de Rosa, era a falta que um carinho na nuca lhe fazia. Como uma lembrança antiga de seu pai avisando que ia sair pra comprar o leite, pra nunca mais voltar.

Rosa tinha pouca idade ainda e resolveu que queria casar. Casou com um nômade, de profissão duvidosa, e maus hábitos. Pervertido, mulherengo, maconheiro. Não. Rosa não casou direito. E num belo dia, de boas nuvens no céu, ao esfregar aquela maldita cueca no tanque, Rosa fez as malas, não pegou nada na casa, apenas o retrato dela e de suas boas amigas e voltou pra casa.

Rosa voltou e fez viagens astrais pela cidade que morava. Namorou quem queria, tinha época que gostava de colecionar namorados, lhe falaram que era boa de cama e ela acreditou. E foi assim, entre um show de rock ou outro, entre um bar e outro com as amigas. Ela o encontrou na pista de dança. Num movimento frenético e com um copo de cerveja na mão.

Existem homens que a comiam com os olhos, esse comia com o sorriso. Do sorriso que Rosa viu pela primeira vez aos diamantes que brotavam de seus olhos. E por entre as pernas o orgasmo vivo. E ela se mostrou para ele, com unhas e dentes. Foi tão leve, mostrou o que sabia do mundo, nada além de algumas citações de Roberto Freire, ou alguns filmes de Bertolucci. Mas ele se encantava, e ela deixava. Não se negaram em nada, nem naquele sentimento pueril e nem nos melhores orgasmos na vida de Rosa. Mas a realidade costuma ser cruel para mulheres como ela. E ele disse em um dia muito comum e ordinário. Teria que ir embora. Ele não era mesquinho, e esse não era nenhum fora tolo que Rosa estava acostumada. Ele realmente tinha que ir embora. Morar longe de Rosa.

Passou o carnaval na vida de Rosa, a cena de Grease a acompanhava. Amor de verão, sabe? Amor de verão atravessa continente? Rosa não sabe de mais nada. Na cabeça dela só a encenação da despedida - a la Casablanca -  e a carta que ele nunca vai ler.

Hoje, Rosa passa os dias vendo novela e fazendo tricô. Aprendeu a costurar, a fazer bolo de cenoura, parou de beber. De sair. Hora ou outra o consolo vem em pequenos goles do tal licor. Não sabe o que vai fazer com os tais calafrios, mas aprendeu a rezar. E viu que conversar com Deus lhe dá a mesma sensação na nuca. E que Jesus nunca vai lhe faltar e nem viajar. Por isso hoje, Rosa usa silícios, caso algum calafrio insista em voltar, e cuida da ala das enterradas-vivas, num convento perto de Jaboticabal. Lá ela reza e ensina como rezar. Se comove com a história de três garotas perdidas e pensa que um dia bem que podia compartilhar sua história.

Amém.


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