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Rafaella Biasi
Eu, hemorragia
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Rafaella Biasi cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato.

rafaella_biasi@hotmail.com

 

Publicado em 22/05/08

Alicia, por ela mesma

Alicia recebeu da vida alguns dos atributos mais fortuitos, o suficiente para ter tudo e não pedir quase nada em troca. Os olhos se davam para o coração que oferecesse mais. Tinha na pele cada movimento marcado de suas histórias. A primeira vez que entrou no mar é uma memória que sempre comoveu Alicia. Ela via na vida a oportunidade de estrelar A peça de teatro. Ela via na vida um palco iluminado, e sabia que ia chorar quando saísse de cena. Ela não decorava textos, ela era o seu próprio, com passos marcados, movimentos estrategicamente calculados, o movimento da luz nos cabelos era talvez o ato de maior importância em sua peça, que nunca se repetia. Alicia se comovia com o próprio choro, ria de suas piadas. Não precisava de público. E foi como uma ironia, foi como brincar com fantoches. Alicia, depois daquele acidente, era apenas telespectadora de sua trama. Talvez seu personagem mais central, talvez a protagonista que ela esperava estrelar. Ali na cama, imóvel, personagens mancos, loucos e viris vieram a seu encontro. A amiga de infância, hoje casada e com filhos nos braços, veio pedir desculpas pelo tempo escasso, e por nunca saber o que dizer a ela. E agora na cama, Alicia escutava tudo freneticamente, como se escuta uma fita cassete rebubinar. Era tudo o avesso, o fim pelo começo. Hora ou outra, quem vinha a seu encontro era o seu sócio, vinha com os cuidados dos empresários à beira de perder seus grandes negócios. E Alicia preferia nunca ter sido bem sucedida, a ser apenas aquela ouvinte desenganada. Toda noite vinha ele. O que ela perdera para a vida, para o destino. Vinha com mãos geladas, tirava a franja de Alicia do rosto, e contava alguma memória perdida, as férias em Búzios ou a gafe no restaurante japonês. Ela pressionava o rosto contra si mesma, sentia que ia chorar, mas não chorava. Não queria se comover nos primeiros vinte minutos da peça. Sua mãe dormia com ela dia sim, dia não. Nos dias não, quem ficava era a irmã. E talvez fosse essa a única a sentir por completo o desgosto que Alicia passava. A mãe era de um carinho egoísta, de um sorriso pedinte, mas as mãos a confortavam. A irmã a olhava esperando mais um conselho, esperando mais um olhar de cumplicidade. Alicia queria falar, mas não conseguia. "Que droga esses remédios me turvando a vista". Alicia dormia com três costelas quebradas, o fêmur despedaçado, vários pontos no ombro e na cabeça. Ninguém sabia qual foi a peça-chave do desastre. Ninguém sabia o que havia do outro lado da linha naquele telefonema, ninguém sabia que ruído ensurdecedor a perturbou tanto assim, para que aqueles olhos saltassem carro afora. Ela vai manter esse segredo até o último ato. Por enquanto, ela vive o mais prazeroso dos aplausos; agora é ela quem cheira as flores antes de jogá-las no palco. Alicia manobra o sentido da vida, em momentos opostos da solidão que sempre a fez tão bem. Todo mundo está ali. Os loucos, os desvairados, os neuróticos, os viris. Todos fazendo cena para os olhos de Alicia. E ela esconde muito bem seu último ato, tem certeza que não se passou nem uma hora de show e alguns lugares ainda estão vagos.

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