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Rafaella Biasi
Eu, hemorragia

Rafaella Biasi cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato.
rafaella_biasi@hotmail.com
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Publicado em 14/08/08
Mordidas na ponta da língua.
Historinha pra mocinha dormir porque já está muito cansada pra escutar.
Namorado despede no portão. As mãos por entre as frestas, alisando o rosto e depois as flores do jardim. Barulho de chave da porta do apartamento e meia hora de mordidinhas na ponta da língua. Ela tem ciúmes quando você não está. Ela fala ao telefone roendo as unhas. Sabe se lá o que você está fazendo enquanto rabisca os post its ao conversar com ela. Que rabisco aquele post it merece? E ela ainda limpa. Sem arranhões de caneta bic. E porque seu travesseiro merece um afago com seus dedos ou seus pés? Se quando ela deita você olha esquisitinho, como se quisesse dizer "vem para o meu mundo, mas vem pisando em ovos, porque tem bastante coisa aqui que não é sua" Mas ela sabe, travesseiros pegam estradas com você, dormem onde você estiver. E ela volta pra casa com todas aquelas almofadinhas empoeiradas estrebuchadas em cima da cama de "viúva" como diz a mãe dela. E não adianta a sua mão no peito dela, ou mordidas de viés na coxa. Quando o vestido abaixa, sua mão vai ter com o cigarro, aquele tão displicente no canto da boca. Tragadas tão lentas, suspiros. E ela já está longe, longe de suas vistas, lembrando de toda a cena. O rock que ela não conhece a cerveja barata que ela não toma o despertador que te acorda todo dia, personagens vis de uma história de 24 horas dos quais ela não pertence. A segunda feira que não é dela. O sabonete que escapole por suas mãos, a água do seu corpo a escorrer pelo ralo há quilômetros de distância dela. Sem falar em milhares de xícaras de café, o quadro da parede da sala, todos te vêem vinte e quatro horas por dia.
Não adianta falar que é promessa, porque a sua estrada é demasiado longe, e ela vai esperar sempre. Porque é isso que ela sempre fez. Ela espera pelo dia que os seus travesseiros vão expulsar aquelas almofadinhas pra longe, tadinhas. Ela espera por jogar aquele despertador fora, porque vai ser as mãos dela a te acordar toda manhã. E todos esses personagens terão vida. Porque é isso que ela sempre vai fazer.
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