....................................................


Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com


Conheça mais sobre o autor:
recantodasletras.uol.com.br

Artigos anteriores

................................................................
Crônicas de um bar revolto
De amor e flatulências
Hoje fico no bar até mais tarde
Hoje fico no bar até mais tarde - parte 2
Amor romântico é subdesenvolvimento
Sábado é dia de faxina lá em casa
Loneliness, sadness, wireless (capítulo 7)
Não se diz adeus no Brasil
Eu declaro
Mas pode chamar de Lemão mesmo

 

Publicado em 03/11/08

MANIFESTO HEMORRÁGICO                                                                    

Para Rafaella, Leila & Ruy

Saio porque sou de sair, porque sou externo, sou para fora; um plug RCA totalmente dependente de buracos para preenchimento e afetação de algum sentido ou utilidade.

(On)

Saio, bebo e jogo uma garrafa de long neck no muro – banalidades beatniks. O final da ceninha indolente é que chuto (e o que mais poderia fazer?) uma lata, acendo um cigarro, encolho os ombros e meto a mão esquerda no bolso. Ô náusea...

Pronto, estou salvo, não sou mais ninguém. Ninguém que mereça a atenção de alguém – muito menos a sua. Sem frases de efeito ou gestos grandiloqüentes; nem revolucionário, nem depositário de esperanças – das próprias, das alheias ou, muito menos, das suas.

Só mais um.

Só.

(Rewind)


Acho que (des)entendi minha vida inteira, a física quântica e nós dois, quando tínhamos seis anos de idade e brincávamos de mostração. Eu, simples, para fora. Abria o fecho éclair e mostrava O MEU; movimento automático, descomplicado. Olhar, até que você olhava – mais por instintiva generosidade de fêmea que por concupiscência ou curiosidade – e logo estava... Satisfeita, por assim dizer. De outra sorte, para mostrar A SUA, a operação era muitíssimo mais complexa; eu tinha que me inclinar para frente, encostar o topo da minha cabeça na sua barriga enquanto você usava o polegar para fazer um “V” com a cintura da calcinha e eu mirava para baixo e para dentro; e para o nada. Perplexo diante daquela falésia, sem entender como um abismo, um espaço, uma falta, uma não-existência, um não-algo, um nada-a-ser-visto me sugava para si com tamanha força, eu pouparia telescópios e revisões a Stephen Hawking. Descobri a super-gravidade antes dele e já sabia que essa, vá lá, passagem não me levava a universo paralelo algum. Ao contrário, era o que me arremessava sem dó, e com um bocado de constrangimento, o mais perto (e menos desejável) possível de mim mesmo.

(Pause)

Se revisão houve nessa teoria, foi quando mais tarde me dei conta das suas reentrâncias. Aquilo tudo, suas aletas, valetas, curvinhas, abinhas, seu coeficiente de convecção e aquela micro-protuberância em forma de ossinho da sorte (será isso Le peuple de l'herbe?), um enredo enigmático que até hoje não entendo, um hemisfério inteiro que não mapeio, um poeminha barroco que mal decoro e preciso reler sempre, debalde. De minha parte, puta que o pariu, eu continuava ali: simplão. Sem novidade que valesse; óbvio, externo, para fora. Por isso saio, entende? Saio porque sou de sair. Saio porque, de tão pouco ser, me enfastio de mim – e não me basto.

(Fast Forward)

O que vale dizer é que: sou uma massa flácida e amorfa, com setenta anos de idade e dez arrobas de humilhações, injúrias, viagens interestaduais, veias entupidas e fealdades adiposas (in)devidamente acondicionadas em algum lugar do espaço. Que não penso, mas ainda assim, existo. Que estou numa cama de hospital público, de uma cidade que desconheço, fazendo um cateterismo para ver se resisto a uma cirurgia maior, a posteriori; que o médico, sem sinal algum de espanto, me informa ter encontrado duas pedras em lugar de um coração, ao que aquiesço e digo que já sabia, “Vamos em frente”. Incontinenti ele avisa que vai abrir meu abdômen (à época de Messiê Limá, abdômen era coisa de inseto; humanos tinham barriga) e que vai tentar tirar de lá uma bolsinha de sangue de 15 centímetros chamada “Aneurisma” (bonito nome de mulher), sobrenome “Da Aorta Abdominal”. “Prossiga, pois”, arremeto, “Play, play!”

(Play)

Então temos o médico abrindo em mim um buraco sangrento e eu pensando em você. Rindo anestesiado da coincidência e da ironia, da piada pronta. Aquilo que me mata uma vez é o mesmo que me salvou a vida inteira: um buraco que sangra (rindo muito agora!). O que em você representa a vida e a regra, em mim é o nome de um jogo fatal. O sangue que de você sai do-, a mim leva para o-. Percebe? “Buraco”. Rio de medo, rio muito e tenho muito medo desse jogo – e o medo de perder, você sabe, é a certeza da perda iminente – enquanto isso a bolsinha de sangue estoura. Sofro onze paradas cardíacas, onze diên biên phus, baby, onze waterloos, onze rounds contra um Cassius Clay sem charme, sem dança ou compaixão, dos quais, lhe juro, venço dez – quem disse que seria um jogo justo? Mas tudo bem, não cabe e não quero recurso, viu? Nada de tapetão, atos institucionais, mandados de segurança, apelos ao supremo, all this crap, you know... Não esperneie, baby, é normal, é normal, “É normal, porra...”. Knock out no último round, tudo bem. Perdi.

(Stop)

Contudo encontrei, finalmente, o equilíbrio entre a minha singeleza rústica e o seu hermetismo anímico. Entre minha sparta e a sua grécia, entre o seu vazio magnético e minha vontade (?) de preenchimento; entre o que você faz sempre, em sinal de vida – seu fluxo, sua emoção, la sangre, seus modelitos coloridos, seu indefectível ne me quitte pas – e o meu ceticismo maschio...  E eu o fiz em ato único, baby (rito iniciático?) um pouco antes de morrer. Enquanto meu sangue vertia abundante tudo foi ficando claro e plácido, e pela primeira vez entendi o que você dizia e fazia desde sempre - alguma vantagem haveria de ter nisso tudo – nenhum mistério mais, diferença alguma, estávamos justamente ali, nós dois, vasos plenamente comunicantes e ela. Ela, o nosso septo de comunicação interventricular, nosso canal de lambert e derradeiro ponto de tragicômica convergência. Ela, a hemorragia.

Sorry, baby... Eu tinha que sair.

(Stand by)

-------x--------

(Você que chegou até aqui só tem mais uma obrigação: Ler o “Anti-manifesto” na coluna “Eu, hemorragia” de Rafaella Biasi http://www.cultblog.com.br/rafaellabiasi.html . Caso você considere a hipótese absurda de não atender a essa minha simples reivindicação, advirto, há graves conseqüências; acontecerá com você a pior coisa que pode acontecer a um ser humano: NADA. E o imobilismo é a experiência em vida mais próxima da morte).

Voltar para a página inicial.