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Schwartz
Bar Revolto

Apresentação do autor:
"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo:
dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações
desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da
Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."
walber_schwartz@hotmail.com
Conheça mais sobre o autor:
recantodasletras.uol.com.br
Artigos anteriores
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Crônicas de um bar revolto
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Sábado é dia de faxina lá em casa
Loneliness, sadness, wireless (capítulo 7)
Não se diz adeus no Brasil
Eu declaro
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Publicado em 13/10/08
MAS PODE CHAMAR DE LEMÃO, MESMO. (Capítulo Zero)
Vou ser muito franco: uma pessoa super-culta, super-inteligente,
bem-resolvida financeiramente, super-equilibrada emocionalmente,
super-segura quanto à criação dos filhos e o casamento, bem sucedida de
uma forma geral, sem problemas de pele, peso, colesterol, estresse e
alergias, com grandes leituras, muitos bons filmes assistidos, boas
peças de teatro, viagens & tais jamais se interessaria pelo que
tenho a dizer. Meu papo é com os médios, os sub, os gente-gente, os
esfolados, os que ralam, os que não entendem bem porque as coisas são
como são... entendem?
Meu papo é com aqueles que
experimentam o fracasso muitas vezes ou flertam com ele constantemente;
com essa "minoria" que assume sem muita cerimônia que perde, perdeu, ou
está por fio - sim, uma minoria entre aspas, mesmo, porque não tenho
pesquisa sobre o tema, mas desconfio que qualquer enquete focada na
classe média consumidora do mix de produtos que se encontram nesses
lugares horrendos, inóspitos, que se tornaram, pela ordem: a TV, a
livraria, o cinema e as locadoras de vídeo - predadora de
novidades tecnológicas e itens de, vá lá, luxo & conforto -
revelaria a face de um cerumano superior a humilhar nós outros,
pobres seres humanos infelizes que se lascam no dia-a-dia para manter
as coisas de maneira mais-ou-menos suportáveis. Temo que essa pesquisa
nos mostraria que quase todo mundo se acha um vencedor, graças à
literatura de auto-ajuda, ao silicone e ao viagra, ao que me parece. O
sujeito acorda pela manhã e vocifera para o espelho: "Uaaaaaaaaaah,
você pode tudo! Você é um campeão! És belo, és forte, impávido, um
colooooossoooo! Uaaaaaaaaaaaaaaaaah". E estamos conversados. Assim
vence-se mais um dia. À noitinha o cerumano superior entoa um mantra,
se conecta misticamente ao cosmos e promove a troca de energias
telúricas indispensáveis à sustentação do planeta e ao equilíbrio do
universo. Eu, sinceramente, agradeço a esses fortes abnegados porque,
dependesse de mim, a via láctea já teria derramado. Não tenho tempo e
nem disposição pra isso, preso que me encontro à necessidade primordial
de equilibrar minha conta bancária, minha saúde física e mental, milha
mulher e meus dois filhos pequenos.
Foi no circo que aprendi quem eu sou - não, não foi com o palhaço. Foi
vendo um chinês equilibrar pratos na ponta de varas enormes. A coisa
parece simples a princípio: o chinês apoia o fundo de um prato na ponta
da uma vara de três metros e gira, coloca a vara de pé e o prato fica
lá girando, como se estivesse parado. Então temos a vara de três metros
em pé, o prato na ponta, em órbita sobre seu próprio eixo,
perpendicular à vara. O ponto de contato entre o prato e a vara é,
obviamente, o centro de gravidade do prato; e o equilíbrio se dá.
Perfeito, até aí, não fosse Isaac Newton. Ocorre que o prato, a cada
giro, vai perdendo velocidade - e, conseqüentemente, equilíbrio - por
conta do atrito que age em sentido contrário ao seu giro e se não
houver ação de uma força externa ao conjunto, no mesmo sentido inicial,
fudeu. Para isso está lá o nosso herói. O chinês vem e dá mais uma
sacudidela na vara e o prato se equilibra de novo. Esse equilíbrio,
aparentemente estático para quem olha de longe, depende da dinâmica que
se imprime ao disco de louça; é isso. Mas ainda não foi aí que descobri
quem eu sou.
Acontece que o chinês não deixou barato e resolveu fazer a mesma coisa
com mais um prato e uma vara. E mais uma ainda, e outra, cinco no
total, daí a coisa se descortinou pra mim: cinco pratos girando em cima
de cinco varas. Obviamente o último prato a ser girado está lá
tranqüilão, veloz, equilibrado (lembrem-se desse prato), mas o
primeiro, caramba, o primeiro já está bamboleando, quase caindo, e o
chinês acode lá e dá mais uma sacudida, enquanto isso o segundo prato
está prestes a cair e ele o acode também, o terceiro em situação
precária é salvo no último instante pela hábil mãozinha amarela, um
átimo de segundo antes que o quarto prato despencasse - ufa, essa foi
por muito pouco - e, imaginem só, o quinto prato que alguns segundos
atrás parecia resolvido, girando forte e seguro, por um nada não se
espatifa no chão para vexame do nosso sino-herói hesitante (um abraço,
Danislau!) e pra alívio meu, que quase morro de vergonha alheia.
Pois é isso, descobri quem sou num circo: eu sou o chinês equilibrista
de pratos. Mas pode me chamar de Lemão, mesmo.
Trabalho, filhos, mulher, saúde e todo resto que me rodeia - ignoremos
o critério da ordem dessa lista - são os meus pratos. E eu não posso
parar, eu não posso descansar, eu não posso relaxar. Eu tenho que
correr e girar os pratos; manter o aparente equilíbrio do patético show
da minha vida, oh céus... Fantástico, não? Fantástico... e ainda por
cima tem aquela deprê de domingo à noite, aquela musiquinha...
"É-Fan-tás-ti-cu! Tchan!".
Donde, não escrevo para campeões, os vencedores que se fodam, que se
fodam todos os felizes despreocupados, egoístas filhos-da-puta -
provavelmente estão tranqüilos porque na vida deles existe um monte de
neurastênicos, como eu, pra cuidar dos pratos. Que se fodam todos os
herdeiros de fortunas roubadas com seus discursos sobre ética nos
negócios.. Que se fodam os irresponsáveis mimados pelos pais que,
depois de adultos, ainda cagam para que eles limpem - terceirização de
cagadas, última moda - que se fodam todos os hippies de Arembepe com
suas patéticas roupinhas setentistas, seus cabelos ensebados e essa
conversa fiada auto-alienante de paz & amor - onde é que já se viu
essas duas coisas coexistirem?
Quanto a mim, não tenho tempo - nem recursos - para devaneios. Eu tenho é que girar meus pratos.
Devo a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceito de bom grado doações desses quatro elementos.
A quem interessar possa.
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