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Schwartz
Bar Revolto

Apresentação do autor:
"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."
walber_schwartz@hotmail.com
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Publicado em 22/09/08
NÃO SE DIZ ADEUS NO BRASIL
para Capitu
Contudo, havia a dor de ser sensata - cacofônica e eloqüente, imponderável e inegociável - a humilhar meu ceticismo e minha tentativa de ser livre. Apesar de todos os esforços, estou submetida a ela, sou escrava dela e a opção que tenho é o devaneio, a loucura, a transgressão que não aceito. Portanto, não havia opção alguma além de deixar de ser quem sou.
Ser eu mesma me custa muito caro. Não ser quem sou seria minha ruína.
- Quero te apresentar uma amiga.
- E por que?
- Desde quando é preciso um motivo?
- Se não há motivo, minha cara, não preciso conhecê-la.
- Santo Cristo, que homem difícil!
- Mais uma das suas amigas feias, descasadas, cultas, com filhos, desesperadas e muito-gente-fina?
- Saiba que ela é linda.
- Quer dizer que no resto acertei.
- Não. Quer dizer, ela tem filhos e se separou recentemente.
- Ok, mais uma amiga.
- Preconceituoso.
- Amém nós todos.
- Meu marido te detesta.
- Ele tem toda a razão.
- Em ser preconceituoso?
- Nesse caso, sim.
- Por que? Uma mulher casada não pode ter um amigo solteiro?
- Se fosse algo tão natural você não se esforçaria tanto em mudar meu status.
- Eu quero o seu bem.
- Bobagem.
- Sou ótima nisso de bancar o cupido.
- Sintomático.
- De quê?
- Casamenteiras obsessivas, como você, não fazem favores a ninguém mais do que a si mesmas.
- Explica.
- Mas é óbvio. Tentam compensar a falta de romance na própria vida promovendo romances alheios.
- Sou muito bem casada.
- Exatamente, e ser bem casada representa - aos olhos da sociedade e da Santa Madre Igreja - o fim das possibilidades de romance. Mas como você é uma romântica incurável e sente falta do métier, arranjou um jeito de permanecer em atividade sem colocar em risco a sua moral subordinada ao senso comum.
- Que absurdo! Todo mundo tem suas carências.
- Sim, o que muda é a forma como cada um lida com elas.
- Pretensioso, o que você sabe de mim? Pare de tentar enxergar através das paredes.
- Pare você de tentar me comer “através” das suas amigas.
Ele desnuda a minha alma. Quisera fosse meu corpo, quisera eu me permitisse sem culpa, sem travas, sem medos, meter minha língua em vai-e-vem naquela boca enorme, morder de quase arrancar os lábios. Unhas, dentes e saliva; costas, peito e queixo, todo arsenal, tudo, arreganhar minhas pernas até não poder mais, até quase não poder mais, apresentar a ele meus buracos sem empecilho algum, prontos - “Escolha rapaz, fique à vontade” - sentir o peso, a estocada e a dor, gemer, quicar na cama com toda a força e quase sufocar. A dor, gemer, quicar, gritar e gargalhar feito uma pomba-gira. Girar, girar... a cabeça, unhas dentes e saliva, queixo e barba por fazer queimando a pele, dar pra ele com toda força. Dar, eu quero dar pra ele, com toda força... Mas isso não vai acontecer. O que somos além de animais se não mantivermos, ainda que a duras penas, um pequeno corolário de convicções? Tem que haver limites, ora. Não posso agora, balzaquiana feita, começar a agir feito uma debutante. Maturidade jovial, sim, adolescência tardia nem pensar, nem pensar... Quer dizer, pensar acho que posso, sei lá. Minhas mãos suam.
- Quer tirar esse sorrisinho da cara, por favor? Você não faz idéia de como isso te deixa arrogante.
- Desculpa, na verdade admiro muito você.
- Não faça isso, por favor.
- E não admiraria se você fosse diferente.
- Não quero ser matéria-prima para as suas quimeras! Você é que é um romântico da pior espécie, projeta seu desejo no impossível para continuar sozinho e sonhando com o encontro ideal. Narcisista de merda.
- É possível, mas sou honesto.
- E, olha, não me acuse de desonestidade, viu? Você não entende nada. Não tente me provocar, não vai funcionar, eu estou sendo absolutamente sincera e fiel a mim mesma, acredite.
- Tudo bem, seu altruísmo é admirável - e falso, como de resto é todo altruísmo - mas eu aceito e proponho um acordo.
- Hum.
- Não toco mais nesse assunto e você desiste da idéia de tentar me arranjar uma companheira, ok?
- Ah, tenho que rir do jeito que você falou "companheira". Ficamos parecendo dois velhos num asilo!
- Eu vou embora.
- Acho melhor, mesmo.
- Não volto mais aqui.
- Eu sei.
- Então, adeus.
- Como você é melodramático! Estamos no Brasil, cara, se toca! Ninguém diz "adeus" aqui! Isso é ridículo, artificial e pedante, aliás, a sua cara. Vai embora. Some com esse seu sorrisinho boçal!
Ninguém diz adeus no Brasil, mas ele não é um brasileiro típico. É bem capaz de sumir por puro prazer em me fazer sofrer. Ególatra filho-da-puta, um garoto mimado metido a saber de tudo. Por que diabos fico tão alterada com isso? Meu deus, eu apenas luto para ser a mulher que sou, estou errada? Eu sou assim. Eu não vou mudar, eu sei o que é melhor pra mim, afinal. Claro que sei, eu sei sim. Eu sei.
Merda, agora vou ficar ansiosa esperando o telefone tocar. Pior, vou ficar sobressaltada toda vez que tocar. Não, não, muitas vezes pior! Vou ficar feliz se for ele, preciso disfarçar. Não vou pensar mais nisso. Mas, por via das dúvidas, vou começar a ensaiar o disfarce.
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