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Publicado em 07/04/08 Crônicas de um Bar Revolto - Ô Batuta, e aquela de Salinas? - Já vai... Não há como negar: essa vida de boteco é um lixo. Um antro de frustrações habitado por uma legião de estropiados, fudidos, malamados, perdidos, afetados, neuróticos, adictos, fracassados de todos os tipos, gêneros e graus, uns pseudo-niilistas outros místicos semi-esquizofrênicos, uns leitores de auto-ajuda outros de Ezra Pound, quase todos com passagem pelo terapeuta - ou pela polícia, dá na mesma – um bando de sacos vazios parados em pé, ou em movimento, caçando conteúdo, ou querendo entregar de barato a ternura que lhes sobra, desaproveitada e inútil (Quintana rocks!) cuja data de vencimento vem sendo rasurada e alterada - com cuspe, unha e sangue talhado – há anos pela última desgraça da caixa de Pandora: a maldita esperança. - Batuta, por que você decidiu ser dono de bar, hein? - Sei lá, quando eu era moleque queria ser coveiro... Gente morta por todos os lados, sorrindo à base de álcool etílico destilado ou do outro; fermentando sonhos patéticos – pleonasmo? – fomentados pela absoluta necessidade de respirar, de tentar existir, de gargalhar jogando a cabeça pra trás, de ser visto, de ser encontrado, encontrões no corredor são uma dádiva, oh céus... O mais perfeito e claustrofóbico “dead man walking”, baby. Esperando até o último segundo o telefonema redentor de um governador qualquer – boçal , cheirador de calcinha, zé-roela – que adiasse o choque fatal e o cheiro de carne humana assada (um abraço, Chico César). - E essa porra dá dinheiro? Levo uma porrada-amiga bem no meio das costas: - Fala, Lemão! - Salve Jorge... Olho pra cara do sujeito, vinte anos de amizade, rosto sulcado, magro feito um cão sem-dono, sorriso amarelo-nicotina pra disfarçar a amargura inexorável de corno largado, subempregado, fudido de pó. Olho pra cara do sujeito e sinto uma náusea terrível movida, descaradamente, a compaixão. Por ele, por mim e por toda essa legião de estropiados se debatendo em ânsia de vida, recusando aceitar a derrota, tentando de todo jeito dar forma, cor e sentido a esse grande buraco amorfo em que nos meteram sem direito a recusa. Ah, que merda, me comovi. Afinal, esse inferno é lindo e o lixo é reciclável, poxa. Donde, só poderia ter sido mesmo esse o lugar onde conheci minha Nêga. E foi daqui que saímos pra criar uma filial do inferno só nossa lá em casa, e brincarmos de preencher debalde nossos buracos, e reciclarmos nosso lixinho particular, lambendo feridas que nós mesmos fizemos e... Ah, deixa quieto, isso é outra história. Fica pra próxima. - Batuta, fecha e pendura.
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