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Schwartz
Bar Revolto

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Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com

 

Publicado em 14/04/08

De Amor e Flatulências

E foi numa onda dessas, no meio desse lodo fétido que conheci minha Nêga; perolada, autêntica, reluzente, ofuscante...  Casei com ela no mesmo dia.

- Lemão, poxa, por que que você nunca traz a Nêga no meu bar, hein?

- Não é só no seu, não, Batz, é em bar nenhum. Estamos dando um tempo disso.

O fato é que essa minha geração está numa encruzilhada fé-da-puta: a gente nasceu com o tabu da virgindade em voga, cresceu quando ele estava em decadência e hoje vive nesse emaranhado de coxas que é o mundo, onde qualquer garoto ou garota de vinte anos já trepou com um time de futebol inteiro, incluindo o banco de reservas, e isso não quer dizer que sejam emocionalmente mais maduros, resolvidos, pelo contrário, troca-se de corpo com a mesma facilidade com que se troca o tema da área de trabalho do pc, mas nem por isso resolve-se as questões afetivas, emocionais, com mais competência – sexo é rato doméstico; amor é mamute siberiano (faltou dizer, Jabor, seu mela-cueca). Construímos essa sociedade do jeito que ela é, rompemos tabus e cabaços lindamente e, com orgulho transgressor juvenil, escolhemos esse padrão comportamental em detrimento do padrão-família-papai-e-mamãe, semi-monogâmico que herdamos do pós-guerra e que esculhambamos de vez em 1968. Todavia, naquele tempo, ainda havia o sonho...

- E por que, caramba?

- Ressaca moral. Batuta, da última vez que saímos prum boteco conhecemos lá um casal. Gente bem sucedida, educada, nos viram de pé no balcão e convidaram pra sentar na mesa deles. Eram um pouco mais jovens que nós, ele um tipinho assim meio Michael J. Fox e ela uma pancha-gostosa, estilo Cláudia Magno em “Garota Dourada”, inteligentes, cultos, gente viajada que fala de lugares e eventos sem afetação, sabe? Enfim, o papo foi ficando bom, a gente foi bebendo e se soltando... Lá pelas tantas as mulheres foram ao banheiro e o cara me saiu com essa enquanto bicava um bourbon: “O que você acha da minha mulher?”.

O tal do eu-te-amo, por exemplo, hoje em dia virou coisa banal, se diz a todo tempo, sem muito compromisso, sem critério, é só um gostar-um-pouco-mais, às vezes, só um beber-um-pouco-mais que já sai. É como se na impossibilidade de se alcançar a profundidade dos sentimentos, tivesse sido dada a licença lírica para, ao menos, verborragilizar. Vale que dizer eu-te-amo atualmente não tem implicação prática absolutamente nenhuma, não significa que a pessoa esteja propondo nada, nada, nada, à outra; é só dizer, mesmo e pronto. É aquele rebuliço que dá no estômago – ou nos intestinos? – um arrepio qualquer, uma sensação de contentamento, de encontro, onde quem diz não precisa esperar nada do outro; e o outro que, por favor, não espere nada de quem diz. Trata-se apenas de “expressar o sentimento” – ou, na verdade, a sensação. Algo, portanto, que todo mundo tem o direito de fazer sem ser cobrado, que a gente chamava antigamente de eu-te-amo-de-puta, mas que hoje em dia é o eu-te-amo-normal-que-todo-mundo-diz. A idéia é: não se reprimir, não pensar em conseqüências ou implicações. Sentiu vontade? Deixa sair e pronto. Olha, o mesmíssimo argumento poderia ser usado pra liberar o peido em público. Uma geração de mimados peidorreiros que ama a família-núcleo de onde viemos, mas que não dá conta de construir e manter a sua própria. “São gases, baby, são gases...”

 - “Lemão, olha, vocês são um casal bacana, bonitos, eu acho a sua mulher linda. Minha mulher disse que gostou de você... Bom, que tal a gente ir lá pra casa? A gente bebe mais um pouco, vai pra piscina, você sabe...”

- “Sei o quê, rapá?!”

- “Uai, se rolar um clima a gente troca, né? Ou, se você curte, a gente pode...”

- Batz, o cara não terminou a frase. Com o nariz obstruído pelo sangue teve que usar a boca pra respirar.

- Rapaz, mas e aí?

- Aí que depois de tanta luta pra romper com o modelo herdado eu descobri que esse novo é uma merda, também; não me serve. Então... Ah, deixa quieto, eu tô divagando.

Fecha e pendura, Batuta

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