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Publicado em 29/05/08 HOJE FICO NO BAR ATÉ MAIS TARDENão quero nem olhar pra cara da Nêga, não quero ouvir aporrinhação dela hoje não, sem condições. São sete horas e eu acabei de sair daquele inferno onde eu trabalho, nem pensar em encarar direto esse outro onde eu vivo (?).
Se eu chego lá em casa agora ela vai me cobrar de novo as compras que eu não fiz – de novo – e hoje é sexta. Ela me cobrou na quarta, na quinta e duas vezes dá até pra dizer: “Esqueci, caramba!” (tinha vontade de dizer “porra” mas se eu xingar, mesmo assim a esmo, a Nêga acha que é pra ela, se encrespa, e daí me arregaça a vida por um mês, no mínimo... que nem no Natal do ano passado, não gosto nem de lembrar). Pior ainda se eu chegar lá e disser a verdade. Como é que eu vou dizer pra Nêga que não faço a porra da compra porque o cartão de crédito estourou o limite? Tô morto. - Ô Batuta! O que é que você tem aí de Salinas? Na verdade o troço já vem embolado desde a morte da mãe dela. O diabo da velha me fode a vida até na hora de morrer! - Cachaça de Salinas? Tem ó: Boazinha, Meia Lua, Salineira... Era Fevereiro, fim de mês, IPTU, IPVA, seguro, matrícula, material e uniforme das crianças, despesa do Carnaval o inferno-classe-média de sempre – bem entendido: a meeeeerrrrda de sempre – e a velha me acha de morrer. - Me vê a Meia Lua! (Eu sei que a Boazinha é melhor, mas a Meia Lua é mais forte... e eu tô precisando é de força, não de bondade). - Ô Lemão, tem a antiga Havana também, ó... - Tá louco, Batuta? Quer me quebrar de vez? - Que isso Lemão, você tem crédito... - Tá quanto a dose? - Pra você faz dez. - Manda. (Eu sei que eu tô duro, mas é por isso mesmo que eu preciso de um luxo pra me sentir menos... lixo). Mas que hora, hein, velha larazenta?! Não dava pra morrer em outubro no décimo terceiro, porra? Nas férias de dezembro era perfeito! A gente ficava por lá mesmo e economizava. Mas não: Fevereiro! Beleza. Maravilha toca nós lá pra Bauru em pleno Fevereiro, mais quebrado que arroz de terceira e dá-lhe cheque especial e barrigada no cartão de crédito. De lá pra cá vim pagando o mínimo, pagando o mínimo, borboletando e mantendo a peteca no ar, contando com aquele lance lá no serviço – que já era pra ter saído, mas tão me sacaneando, certeza – ou com o décimo terceiro de agora pra dar uma aliviada. Sei que hoje eu não agüento aporrinhação da Nêga. Eu fico falando da viagem, mas a verdade é que nem sei se foi isso mesmo que embolou o meio de campo ou se o negócio já vinha errado há muito tempo e eu só me dei conta a partir daí – afinal, que merda de chefe de família sou eu que não tem sequer uma reserva pra essas emergências? Só sei que a bendita viagem não ajudou em nada, não ajudou mesmo! E hoje eu tô com raiva da velha. A desinfeliz podia ao menos ter deixado alguma herança decente. Que nada: me deixa uma casa podre, caindo aos pedaços, pra quatro filhas; uma delas morando, com uma renca de criança, desempregada e sem marido... Maravilha! Casei bem, mesmo. (Celular. É a Nêga, claro): - Oi. - nhonho, nhonhonhonho? - No bar do Batuta. - nhonhonho? - Com o próprio. - nho, nhonhonhonhonho?! - Só. Só nos dois, sim. Quê que tem? - nhonhonhonhonho? - Óbvio que tem mais gente no bar né, Nêga?! Senão o Batuta tava fudi... Ferrado dependesse só de mim... -nhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonhonho?! - Uai Nêga, não tô te entendendo, como assim sozinho no bar? Se eu tô te falando que eu tô aqui com o Batuta, oras... - nho nhonhonhonhon honhonho nhonhonhonho nhonhonhonhon honhon honho nhonhonhonhonho)*(*_+__()(*&&%¨%#@@#++__^^``^^|||A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++(_)!@%$$¨&)()*(*_+__()(*&&%¨%#@@#++__^^``^^|||A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++(_)??????????????????????? - Nêga, a gente conversa em casa, ok? - !@%$$¨&)()*(*_+__()(*&&%¨%#@@#++__^^``^^|||A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++(_) nhonhonh onhonho nhonhonhonh onho nh onhonhonhonho nhonh onhonhonho nhonh onhonhonho nhonhon honhonho nhonhonhon honho nho nhonhonhonho A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++(_)!@%$$¨&)()*(*_+__()(*&&%¨%#@@#++__^^``^^|||A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++(_)!@%$$¨&)()* nh onhonhonhonho nh onhonh onhonho nhon honhonhonhonhonhonhnhonho||A|>:?>?><Ç{?:}^`{`_++?????????????????????????????????????????????? - EM CASA A GENTE CONVERSA! - #%¨&¨&%&)&)&!!!!!!!!!!!! - Beijo, tchau!- Ô Batuta! Mais uma Havana aqui pra mim! - Já vai. Pior, quando a velha empacotou eu até fiquei feliz em ir pra Bauru porque lá eu podia procurar o Enzo De Lucca. Ele foi meu chefe e gostava muito de mim, podia me ajudar naquele lance lá do serviço, afinal ele conhece muita gente e ia ser um prazer bater um papo com o velho; soube que ele andou meio mal de saúde. Tinha ouvido dizer que ele estava apresentando um programa na rádio - ou na TV talvez – portanto, ia ser fácil encontrar o Calabrês. É, e foi mesmo; qualquer idiota, andarilho, sem-teto ou bêbado de Bauru me informava: “Dotô Enzo De Lucca? Pois o hômi num acabou de morrê?”. Também?! Cacete, o que é isso agora? Epidemia? Praga? Complô? Todo mundo resolveu morrer pra me fuder de vez a vida? Maravilha, maravilha... Que cara de sorte eu sou, hã?! Em três palavras: Cagado de urubu. - Ô Batuta, o quê que a gente viu nessas mulheres de Bauru, hein? - Sei lá rapá... Acho que a gente gosta de mulher brava, né? Mandando na gente... - Ah, mas a sua é tranqüila... Essa Nêga que eu fui arrumar, deuso-livr-eguarde... - Tranqüila? Humpf... Ela engana bem, isso sim... Já tive pra fechar o bar umas três vezes, nem te conto. Mais uma Havana? Enzo De Lucca, o Calabrês. Cara bacana viu? Quando eu o conheci ele devia ter uns cinqüenta e tantos; eu, vinte e poucos. Eu tive poucos homens na vida. Convivi alguns anos apenas com meu avô materno, o outro nem conheci, tinha meu pai e, de resto, aquela mulherada: um monte de tia e prima, fora a mãe e a irmã. Enfim, progesterona demais na minha criação. Deve vir daí essa minha carência por figuras masculinas que, ato reflexo, vira admiração por machos-alfa como o Enzo de Lucca. Cara bonito o Calabrês; tinha mais de um metro e noventa de altura, longilíneo, bem distribuído, um vozeirão de locutor de rádio, montado na grana, enfim, o topo da cadeia alimentar – comia todas. E eu era um dos protegidos dele (sucessor?), gostava quando no intervalo de uma reunião geral o Enzo vinha me abraçar. Todo mundo ficava olhando, morrendo de inveja, parecia o Don Vito Corleone abraçando aquele irlandês que era o consiglieri dele – a italianada da firma desconjurava. E como era cheiroso o Enzo De Lucca - “Azzarro”, ensinava, “passe no peito, sempre no peito. Vai por mim”. Óbvio, a mulherada se desmanchava por ele, até na zona – vi puta sinceramente apaixonada pelo Calabrês; de dar trabalho, mesmo. Tenho certeza que comi algumas mulheres naquela época por causa dessa amizade. - Ô Batuta, olha que loira ajeitada que vem chegando ali... - Tá louco, rapá, esqueceu da doze aqui embaixo do balcão? - Boa noite, Dona Lora. - Boa noite, doutor. E a Dona Nêga como vai? – Oi Amor. - A Nêga? Aquele sossego de sempre, né? A senhora sabe... - Precisamos marcar uma viagem juntos pra Bauru qualquer dia desses, hein? – Né Amor? - A Senhora não vai acreditar, mas eu tava aqui pensando exatamente nisso. Nisso e em como o Batuta é um cara de sorte; puta mulherão essa loira. Parece que colocaram a cabeça da Barbara Streisand no corpo da Magda Cotrofe. E tranqüila hein? Gente boa... Professora universitária, sempre passa pelo Le Batuté quando termina as aulas. O Batuta fala que ela é brava, mas é porque ele não mora lá em casa; não agüentava a Nêga um mês! Sem falar que ela me lembra demais a última namorada que tive antes da Nêga... Putz. Devia era ter casado com ela: moça bonita, família boa, calma, uma princesa... Tsc, vacilei. Na verdade eu tava com ela ainda quando conheci Nêga. Só tinha dado um tempo, sei lá, queria pensar direito. Nos últimos meses toda vez que eu almoçava na casa dela sentia uma certa tensão no ar, o pai parecia conversar comigo esperando que eu dissesse alguma coisa. Era até engraçado: ele puxava um assunto, eu fazia um comentário e ele não dizia mais nada. Ficava lá me olhando por cima dos óculos... Vez em quando falava de um evento familiar qualquer de três ou quatro anos atrás – que eu tivesse presenciado, lógico – “Lembra do casamento da Ludmila? Rapaz parece que foi ontem, né? E a filha dela já vai fazer dois anos semana que vem!”. Eu aquiescia, fazia de desentendido e continua por lá quase rindo da já tradicional sessão de constrangimento semanal; mas já estava ficando insuportável. - A senhora conheceu o Enzo De Lucca lá em Bauru? - Não me fale desse homem. - Hum. Daí tive a brilhante idéia de inventar uma “viagem de trabalho”: disse que ia ficar fora da cidade uns quinze dias e tal... Beleza. Quinze dias eram perfeitos: tanto dava pra fazer uma bela despedida de solteiro caso eu resolvesse casar, quanto pra tomar coragem, sair fora e curtir minha solteirice por mais, sei lá, uns 10 anos... Só que não aconteceu nem uma coisa nem outra. Alguma surpresa? Àquela altura eu ainda não sabia que há sempre, no mínimo, três saídas possíveis para as situações mais dramáticas da minha vida: duas que eu prevejo e aquela que acontece. - Você precisa trazer a Nêga aqui, vez em quando. Afinal de contas foi aqui que vocês se conheceram, não foi? - Foi, sim. É por isso que eu sou tão grato ao Batuta e continuo freqüentando. - E por que ela nunca vem junto? - Eu geralmente dou uma passadinha aqui saindo do trabalho, é caminho. No mais, tem as crianças, né? Fica complicado... - Sei. Nem despedida de solteiro nem farra. “Uma passadinha” no Le Batuté antes da tal “viagem”, uma roda de samba – tinha lá o tal de Todinho no cavaco, um show! – eu me empolguei com um afoxé, uma cachaça e fui ficando. Na mesa ao lado umas quatro gostosas e mais aquela que iria “virar a minha cabeça”, “alterar o curso da minha vida” e todos os demais possíveis clichês mal-ditos e re-pisados ad nauseam; consagrados por décadas e décadas de pieguice sentimentalóide! Oh céus... - Quanto tempo de casado já, doutor? - Me dá um suco, Amor? - Dez. - Nossa, que beleza, hein?! - Maravilha! (Pra quem perdeu o gosto pela liberdade...) - Como? - Nada. - Eu ouvi! - Laranja, sem açúcar, querida? - É. O que foi que ele disse, Amor? - Nada. E eu, ao invés de uma despedida de solteiro com farra e mulherada ou de “um tempo pra pensar” tipo retiro espiritual, naquela mesma noite me apaixonei pela Nêga e fizemos mais sexo nos quinze dias seguintes do que eu tinha feito com a princesa durante todo o namoro. Ou seja, não resolvi minha situação com uma mulher, arrumei mais uma e fiquei ME devendo a tal farra até hoje. Jesus amado, até pra mim eu devo. - Vou chegando, Batuta. - Beleza, Lemão, obrigado. - Eu que agradeço. – Dona Lora, até mais. - Tchau. Beijo na Nêga e nas crianças. - Obrigado. Voltar para a página inicial. |