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Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com


 

Publicado em 11/06/08

Hoje fico no bar até mais tarde - parte 2
 
O Batuta é um amigo muito eficaz. Não, nada. Nada de grandes papos, de compadrismo ou de troca de favores além do trivial, nada de mais; é que prezo muito esse tipo de amizade que não dá trabalho, meio neutra, sei lá... É como o gole d´água que se toma entre um vinho e outro.

- Lemão, peraí um minuto. – Lora, olha o balcão pra mim um instante?
- Claro.

A gente troca umas impressões gerais sobre a vida sobre o mundo, acaba descobrindo idéias e opiniões coincidentes... E isso é fundamental para a sanidade mental de um sujeito. O Batuta e “o nosso jeito de ver as coisas” me ajudam a manter o “equilíbrio em meio ao caos” (juro que esse é meu último clichê por hoje).

- Lemão, chega aqui deixa eu te perguntar uma coisa...
- Diga lá.

O Batuta é fundamental para me ajudar a sustentar essa ilusão de normalidade que impede que a gente dê um tiro em alguém, na gente mesmo, peça o divórcio ou vá viver na colônia hippie de Arembepe. A conversa da gente é sempre permeada de: “Ah, comigo é a mesma coisa...” e, olha, tem horas que tudo que você precisa na vida, no mundo, é ouvir alguém dizer que o que você está passando é perfeitamente normal e acontece com qualquer um o tempo todo e, de preferência, que acontece com ele próprio também... Ufa, mesmo que seja só retórica, não importa desde que você acredite, é um puta alívio.

- Quero vender o bar.
- O quê?
- O Le Batuté tá à venda, não agüento mais.
- Tá louco ou eu é que tô bêbado?
- Porra, Lemão, eu tenho profissão você sabe. Quero retomar, voltar a dar aula, ter uma vida mais, sei lá, “normal”...
- “Normal”...?
- Tô falando sério, cacete. Não sei se “melhor” ou “normal”, só sei que essa aqui eu não quero mais.
- Ah tá, tipo “cansei” né?
- Ah... Não fode, Lemão...
- Mas você já arrumou essas aulas?
- A Lora tá vendo isso pra mim, vou ter que começar com duas por semana, né... Mas a idéia é vender só metade do bar agora, tipo, arrumar um sócio, sabe? Daí eu vou batalhando aos poucos a carga horária nas faculdades, nos colégios, nos cursos e quando tiver uma grade boa eu vendo a outra metade.
- Francês, Batuta? Vai viver de francês? Ninguém mais fala essa porra...
- Você tá louco, francês é um clássico...
- Tá bom, tá bom, pode ser... E qual é a pergunta?
- Hum?
- A pergunta, porra, eu ia saindo você me chamou dizendo que queria...
- Ah... Quer comprar?

Bom, eu tenho um plano. Hoje é sexta-feira: vou ao supermercado do bairro, faço a bendita da compra, pego a fila daquela caixa gordinha que sempre me dá um sorrisinho safado, puxo uma conversa pá & tal, saco o talão de cheques - eles só aceitam cheques de quem é cadastrado e eu não sou, óbvio - dou uma de desentendido vou preenchendo e conversando...“Pode colocar o telefone no verso, por favor, senhor?”, “Pra quê? Você nunca me liga...”, risinhos, uma piscadinha, ela cora como se de fato tivesse alguma vergonha naquela cara porca (sempre acho que as gordinhas fazem muito mais sexo do que as magrelas), “Deposita na terça, pra mim, querida?”, “Claro, com prazer...” eu ia tentar descrever a cara dela quando diz “prazer”, mas conforme prometido vou tentar economizar nos clichês. E eu vazo de lá com as compras da Nêga, cheque na terça só compensa na quarta, ufa, deu tudo certo... EU SOU FOOOODAAA!

- Oi, as compras...
- ...
- Acho que tá tudo aí.
- ...
- Só não deu pra trazer exatamente as marcas que você prefere porque comprei aqui mesmo no mercadinho, ok? Não tive coragem de encarar um carrefour-de-sexta-à-noite, Nêga... Hoje meu dia foi fo... go. Nem te conto...
- ...

Ela não vai falar comigo, eu sei, tá puta porque a minha assiduidade ao Le Batuté tá maior do que o habitual. Nem é isso, tá puta mesmo porque – e isso é bem constrangedor – eu não tenho comido ela direito. Oh céus... dez anos, pensa bem, dez anos são cento e vinte meses, agora coloca aí umas oito fodas por mês, mais as duas, três por dia naqueles primeiros quinze dias, mais os meses de férias que isso vai pra quase o dobro, desconta aí uns quatro meses de gravidez – no total das duas – porra, mil fodas! Mil fodas e eu ainda tenho que provar alguma coisa?! EU SOU O MIL FOOOOOOOOODAAAAAAS, PORRRAAAAA! (Huum... Gostei dessa conta).

- Tem janta?
- ...

E tem mais... O tesão, como todo mundo sabe e ela também deve saber, não é mais o mesmo. Aliás, quem é que fica casado dez anos por tesão? E olha que, mesmo assim, vacilei pouquíssimas vezes nesses dez anos, hein? Pouquíssimas vezes... Comparado com os caras lá do serviço, então? Putz... Sou uma donzela. Não, não... Não é por tesão que se fica casado, mas isso todo mundo sabe. Pelo menos não é pelo MESMO tesão.

- Pode deixar que eu esquento, Nêga...
- ...
- Bom, se você vai, então tá.

Era um troço estranho... Quando eu conheci essa mulher ficava de pau duro só de falar com ela ao telefone. Eu chegava em casa logo depois de termos transado por horas e fazia o quê? Batia uma punheta PRA ELA! Uma loucura! Eu tinha tesão por cada centímetro do corpo dela: Lembro-me de estar ali no papai-e-mamãe, começando a brincadeira, beleza e tal, daí resolver dar uma olhada por baixo do meu braço pra ver a curva que a cintura fazia, com as coxas flexionadas, ai, ai, ai pra que? Orgasmo instantâneo! Visual? Sei lá... Era um troço estranho, um assombro, um deslumbre, uma ânsia antropofágica...Eu lambia, chupava, sugava qualquer parte daquele corpo como um cão danado. O sonho perfeito dos famintos: eu matava sede e fome e nada se consumia.

- Nêga, os meninos vieram me falar que outro dia quando você me levou no trabalho ficou chorando no carro enquanto me olhava entrar no escritório. Achei estranho mesmo que você ficasse lá parada, achei que estivesse mexendo na bolsa ou no celular, sei lá, depois comecei a achar que era defeito no carro... Daí eles vieram me contar isso. Você assusta as crianças assim, sabia? O quê que foi, hein?
- ...

Um cão danado num mar de costelas com osso; primeiro o deslumbre, depois o fastio. Beleza, mas isso é só metáfora... O fato é que fiquei.  Após o fastio permaneci e por que? Se for querer saber mesmo tem que pular todas as conveniências – casa, comida, roupa-lavada, filhos – e inconveniências – não ser mais dono de si, do seu dinheiro, dos seus desejos, de porra nenhuma – de se ter uma família e escarafunchar mesmo, sem dó, alma de um macho... Por que? O que é? O que virou? O que faz a gente ficar? Olha, não sei se é isso, posso estar viajando, posso estar bêbado, carente ou as três coisas... Mas eu tenho um palpite. É a mesma coisa que fez a Nêga chorar vendo o homem dela indo pro trabalho, morrer um pouco, entregar-se ao sacrifício, dar um naco da própria carne e sangue em troca de uns trocados pra manter a família. É estranho, mas o que faz você ficar, permanecer com alguém é um sentimento completamente diferente daquele deslumbre inicial. É quase o contrário disso. Compaixão? Putz... Isso seria tão terrível... Mas é algo por aí.

- Nêga, cadê aquele CD do Zeca Baleiro? Lembra daquele show no SESC de São Carlos? Quando foi aquilo hein, 98? “Os 5 no Palco”, lembra? Zeca, Chico César, Paulinho Moska, Lenine e Marcos Susano... A gente achava que estava assistindo o nascimento de um novo grande movimento cultural como a bossa nova, a tropicália... Lembra, Nêga?
- ...

Dignidade. A admiração pelo esforço do ser humano – bicho-ser, escroto, perecível, condenado à decrepitude e à morte – que coabita com você em parecer digno. Isso é um troço muito forte e que você só sente por quem está muito perto de você. Lembro-me de na minha fase mais rebelde chegar em casa às 5 da manhã e ver meu pai se aprontando pra sair pro trabalho. Dava uma culpa, sim, mas não era só culpa. Quando ele saia eu ficava olhando pela janela ele ir a pé, passos lentos porém firmes, até o ponto pegar o ônibus, ralar até à noite pra ganhar a merreca que nos sustentava. Tá, um pouco era culpa sim, mas não era só isso. Eu via ali a expressão encarnada do termo: Dignidade. Por que aquele cara não desistia? A guerra estava perdida mesmo... Por que não me mandava pro inferno? A mim, a minha mãe, minha irmã, ao cretino do chefe dele e todo mundo? Sei lá, eu sei que a Nêga sente isso por mim e eu sinto isso por ela também.

Agora ela tá lá, puta comigo, mas esquentando a minha janta, percebe? É algo muito além daquele tesão inicial... Muito além. Até porque ao vê-la assim, com esse lenço vermelho no cabelo (adoro lenços no cabelo), mexendo o feijão e com isso provocando em si mesma um rebolado sutil e involuntário, putz, me dá um tesão... Um tesão que não é aquele. Sem dúvida é um outro tesão, um tesão velho feito um syrah, de intimidade e de admiração pelo esforço patético, e por isso mesmo comovente, de um ser humano que vive ao seu lado de ao menos parecer digno, respeitável, belo e forte - e fazer o que tem que ser feito pra isso – algo além de si e de sua miserável e inexorável condição. Um bicho efêmero condenado à decrepitude, ao apodrecimento como qualquer cão danado, mas que resiste e se supera, ou tenta – e o bonito está nesse tentar. O que me comove é essa pose, esse senso estético que leva o bicho-ser a entrar na arena com o jogo perdido, mas com o uniforme impecável; esse pentear de cabelos antes da guilhotina; esse engraxar de botas antes de ir à guerra.

E é assim mesmo, puta comigo, que a Nêga tá aqui esquentando a minha comida, fingindo que não me ouve quando eu falo de coisas que ela gosta, fingindo que não me vê aqui na cozinha, com o lenço vermelho no cabelo do jeito que eu gosto, mexendo o feijão e rebolando – involuntariamente? O cacete! Isso é o diabo! Ela faz assim porque sabe o que eu sinto, o que eu penso e como é o meu tesão de hoje, mudado, transmutado. Se não sabe, intui. E se intui não erra porque é assim mesmo que eu não resisto; vou chegando como quem não quer nada, vejo os pêlos do braço dela arrepiados só de perceber a aproximação: Dou-lhe uma bela encoxada e uma fungada no cangote enquanto ela mexe o feijão e rebola. Colo a boca no ouvido dela e digo: “Minha Nêga...”. E a Nêga marrenta, puta da vida comigo, abre um sorriso safado, olha pro teto com os olhos fechados e diz: “Páraaaa...”. Tudo normal; é vida que segue.

 



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