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Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com


 

Publicado em 27/06/08

Amor Romântico é Subdesenvolvimento                                        

AI-MEU-SACO! Ponto.

Sinceramente, não dá mais. Não dá mais pra agüentar esse discursinho lírico-juvenil de gente que já passou há muito da idade – se é que isso é questão de idade, sei lá... pra mim é sandice, é irritante e é ponto de novo. Ponto.

- Esse Lemão deve ter muito dinheiro, né?

- Lemão? Acho que não, hein. Por que?

- Ah tem sim, ele é rico, certeza. Só rico pra falar esse monte de desaforo e ainda ter gente do lado dele pra escutar.

- Hum.

Porra, mas será possível? Em pleno século XXI?! Será que a pessoa não é capaz de  perceber as enrascadas em que se mete por conta dessa fantasia? O tempo de vida jogado fora dedicado a uma idéia surreal? Quantas alegrias honestas, saudáveis e possíveis, sistematicamente auto negadas em nome dessa teoria metafísica muito da meia-boca, por sinal...  Pior: as oportunidades raras desdenhadas, tratadas como se fossem uma ameaça ao absurdo do amor. Não! Tem pior, muito pior: há quem troque a  própria dignidade pessoal por um punhado de carinho (um beijo, Laurita!). Emoções de folhetim, enfim, MALDITO SEJA O AMOR ROMÂNTICO: MONTANTE DE EXPECTATIVAS IRRACIONAIS; JUSANTE DE LÁGRIMAS AMARGAS.

- Batuta, Néctar do Cerrado.

- Uai, mas você só tomava as de...

- Xiu! Tô batalhando um patrocínio pro Cultblog, sô...

- Hum. Amburana?

- Castanheira.

Fora o ridículo, né? Mas esse aí o Seu Fernando Pessoa já fez o desfavor de absolver em suas cartas de amor (ridículas) – e eu sofro terrivelmente de vergonha alheia. Enquanto isso os divãs seguem ocupados e com fila na porta; as marias da penha são reduzidas a sub-de-si-mesmas, tolhidas, podadas, humilhadas, roubadas, espancadas, aleijadas, mortas, tudo-em-nome-do-amor; os otelos matam, se matam, espancam, se drogam, são mortos também, vão à falência, à zona, às drogas, ao hospício, mas tudo-em-nome-do-amor, claro. Os filhos? Ah, esses são defenestrados – última moda – às vezes, literalmente. Porém, que fique bem entendido, tudo-isso-em-nome-do-amor, ok? O amor romântico é a essência do deus beligerante em nome do qual se vai à INTIFADA. (Procura no google).

- Lemão, olha só que ingratidão, rapaz, eu fiz de um tudo, DE UM TUDO, VIU!? Pus meus planos de lado, me esqueci até de quem eu era, dos meus talentos e prazeres pessoais, EU ACREDITEI! EU CONFIEI! E, pra quê? Me diz! Pra quê?!

- Pra viver o que viveu, oras. Por que? O preço foi muito alto?

- Foi.

- Pelo fim ou pelo durante?

- ...

Esse fruto maldito do amor cortez, improvável rebento de Tristão e Isolda que sequer treparam, os cretinos, antes tivessem! - e que Isolda tivesse um baita corrimento esverdeado e Tristão, ejaculação precoce e fimose! Ah quem dera, meu deus, quem dera! – mas que, ainda assim, castos e impedidos, emprenharam gerações e gerações com essa idéia mórbida, absurda de que um homem ou uma mulher objetos do amor se tornam algo divino, místico, espiritual a quem se deve adoração genuflexa, a despeito de si; cuja palavra tem força de lei, com poder absoluto sobre o bem e o mal-estar do desinfeliz, bocó, que acha que “ama”. Essa cultura maldita que ligou sofrimento, impossibilidade, idealização, rejeição, prazer sexual, carência afetiva e a mais ridícula das vaidades ao amor; e que agora eu, justo eu, além de ser obrigado a conviver com o chorume fétido da cultura romântica – filmecos, livrecos, poesias de quinta, música brega e pobre – tenho ainda que, no meu único momento de lazer, no meu refúgio sagrado – o boteco – tomando da santa água ardente das Minas Gerais antes de ir pra casa encarar a Nêga mais marrenta que o Rio de Janeiro já produziu, agüentar as lamúrias desses fodidos e fodidas, marmanjos infantilizados, adolescentes tardios, que cavaram o abismo com a própria genitália e resolvem desabafar justo no meu ouvido. Ah, tenha a santa paciência, vai desabafar em baixo do lençol e cobrir, porra!

- Olha, essa mitificação do amor é que é foda. Estatisticamente, se houvesse a tal “pessoa certa”, o mais provável é que ela estivesse em algum lugar entre a China e a Índia, que é onde mais tem gente nesse mundo.

- Ah Lemão, mas você é muito racional!

- Obrigado, bondade sua...

No amor romântico A VÍTIMA SEMPRE TEM CULPA. Ninguém é pego de surpresa, nenhuma ponte cai sem estalar, parede não cai sem rachar ou inclinar, todo mundo sabe quando está entrando numa fria e, se não sabe, é porque não quis saber, não quis ouvir, não quis ver, tamanha a ânsia em se ajoelhar – eita povo CRENTE, viu... – em se sentir pertencido, em mudar o status, em comemorar datas, em transbordar as próprias expectativas, e a ânsia maior de – oh céus, que triste... – REDIMIR AS FRUSTRAÇÕES ACUMULADAS DAS TENTATIVAS ANTERIORES! (Aaaaah... isso, isso é bom, né? Estufar o peito, olhar pra trás e dizer: “Humpf... estou muito melhor agora”, aaaah... aaaah... a pessoa se joga e não quer nem saber se o rio é lajeado). Porque na visão deísta do romantismo, o amor redime, o amor cura as feridas, o amor conserta as cagadas pregressas, "what a bullshit, baby"... o amor é a grande promessa de felicidade da classe média ocidentalizada, paparicada, mimada, que lota os shoppings, consultórios, clínicas de estética, academias e resorts e acha que tem o direito (dado sabe-se lá por quem) de receber de outrem o que deseja – sério, tem gente que acha mesmo que cumprir o ideal romântico é um “direito”, dá pra acreditar?! Bem, até aí, beleza, que se fodam. Mas vê se  erra o meu ouvido, poxa.

- O que eu faço agora, Lemão?! O que eu faço...

- Simples: dá todo seu dinheiro pra mim, incluindo cartões de crédito, débito, cheques, tudo. Ah, e a chave do seu carro também.

- Poxa, Lemão, fazendo piada comigo numa hora dessas?

- Piada não, piada não... tô te dando uma razão real pra se preocupar. Você tá com dinheiro demais, tempo ocioso demais e ideais nobres de menos. Arruma alguma coisa séria pra pensar, vai estudar, vai fazer serviço voluntário, vai ajudar alguém sem esperar nada em troca, vai fazer da sua existenciazinha breve alguma coisa que seja útil pro mundo e não só pro seu umbigo; ou ao contrário, vá aproveitar a sua vida, a sua força, o seu corpo de uma maneira mais saudável e prazerosa do que essa: ficar aqui se torturando por alguém que tá cagando e andando procê, porra. Largamão de pensar pequeno, de reduzir seu universo, seu potencial por conta dessa idéia ridícula de que alguém tem que vir ao mundo pra fazer você “feliz”. Vai descobrir primeiro quem de fato você é, vá se desenvolver, enxergar um sentido pra SUA vida, ser alguém que VOCÊ goste e admire, antes de sair por aí arrumando muleta emocional pra justificar seu subdesenvolvimento pessoal e a sua PREGUIÇA em-nome-de-um-puto-de-um-amor-fantasioso-que-só-existe-na-sua-cabecinha-doente-carai. Ah, isso é patético e pra mim chega!

- ... Oncê vai?

- Pra casa TREPAR com a minha Nêga, assim que eu conseguir explicar porque não peguei o remédio manipulado dela na farmácia homeopática que fechou há 25 MINUTOS. Batuta! Cobra de quem sair por último!

(Taqueopariu, viu...)

                                                                 -----x-----

Amor é quando, depois de muito tempo, se olha pra trás e pro lado, vê quem esteve com você e se tem vontade de dizer: valeu, obrigado.

Não há amor a priori. Amor só existe a posteriori.

Só dá pra ver o amor, de fato, no retrovisor.

(Para o amor de Ruth e Fernando, depois de 50 anos juntos).


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