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Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com


 

Publicado em 06/10/08

EU DECLARO

A Nêga anda encrespada comigo, só-pra-va-ri-ar.

Agora deu de me atazanar por conta da minha suposta “falta de romantismo”, cacete, que importância tem isso, meldels?! Eu faço de um tudo aqui para manter as coisas nos trilhos, para que a vida seja boa, o melhor possível, trabalho feito um burro de carga, de sol a sol, para que não falte o básico nem o trivial indispensável. Comida, plano de saúde, TV a Cabo, dois carros financiados 100%, casa financiada 100%, seguro de vida para não sair devendo nem ao Batuta, eu rala, viu? Eu rala... E ela me cobra romantismo. Tô fudido.

- Lemão, quero voltar a trabalhar.

- Uai, Nêga, mas a gente não tinha combinado de esperar as crianças ficarem maiorzinhas pra não precisar de babá...

- É, combinamos, mas não ta dando, não, eu vou pirar se não fizer alguma coisa. Ser dona de casa tempo integral é pouco; muito trabalho sem paga.

- Achei que você gostasse...

- Até gosto, mas não dá, é estressante como qualquer trabalho e não tem reconhecimento, não tem prêmios, não tem happy hour nem festinha de fim-de-ano na empresa com amigo oculto, enfim, quero ter contato com outras pessoas, outras idéias, outros assuntos que não sejam você e os meninos.

- Nêga, até te entendo, mas isso não foi o combinado.

- Eu sei.

- E você sabia que ia ser assim...

- Não, isso eu não sabia, Lemão. No começo era diferente, a gente conversava mais, mesmo com os pequenos, você sempre arrumava um tempo, um jeito de a gente ter os nossos momentos, mas agora você só fala dos compromissos que a gente assumiu, da grana que não vai dar até o fim do mês, que estão te sacaneando no trabalho, que a sua promoção não sai, percebe? Cadê nós?! Ficamos reduzidos a você, provedor, e eu, governanta. Você chega e me passa um relatório do seu trabalho e eu te passo um da casa, totalmente proforma porque nem eu nem você estamos muito interessados no “problema do outro”. Eu sinto falta do que éramos há 11 anos....

- Nêga, não chora, escuta... Você tem razão, eu vou tentar ser mais paciente, me interessar mais pelo dia-a-dia da casa, participar mais...

- Não, Lemão, não é isso. Não é só isso...

- E o que é então?! Olha, eu sei que você fica vexada se o sexo...

- Pára, Lemão! Que sexo, exo, o quê, seichonoiê! Eu to falando é do amor, do romantismo, a gente perdeu isso, percebe?

- Ai,ai,ai... eu sabia.

- Sabia, né? Pois é, então nem preciso dizer.

- Nêga, você sabe muito bem o que eu penso sobre isso, esse negócio de amor romântico...

- Ah, Lemão, me poupe vai... Eu sei, sim. Que “amor romântico é coisa de subdesenvolvido”, que “a realidade da vida não é essa”, “que amor é algo construído ao longo de décadas”, “que o que as pessoas chamam de amor por aí é 50% de tesão e 50% de projeção”,  Lemão, eu sei de tudo isso, e até concordo. Na maioria das vezes você tem razão, as pessoas dizem eu-te-amo como se pedissem pizza de mussarela por telefone. Mas, olha Lemão, me escuta, o extremo oposto, essa visão demasiadamente prática que você tem da vida conjugal, está me sufocando. Eu não sou apenas sua sócia em um projeto, eu sou mulher, entende? Eu sinto falta do seu carinho....

- Carinho?! Poxa, Nêga, eu não sou carinhoso com você e com as crianças?

- Tá vendo? É isso, você é carinhoso sim, Lemão. Só que você estabeleceu uma espécie de padrão de carinho que serve para mim e para as crianças. Eu falo da minha parte exclusiva, entende? Daquele carinho que você reservava só pra mim, poxa.

- Não chora, baby... O que é isso na sua mão, a lista de compra?

- Não, é só uma coisa... Uma coisa que eu achei. Coisa velha... Que você escreveu pra mim quando a gente era namorado.

- Xô ver...

- Não, esquece, deixa pra lá... Eu tô de TPM, tô meio sensível, desculpa o drama.

- Xô ver, Nêga...

- Não, esquece, esquece... Olha, você está certo, viu? Em meu estado normal eu nem penso nessas coisas. Você tem sido ótimo, um maridão, um paizão, sei que você se vira do avesso pela gente, mas é que às vezes... Enfim, eu tô cansada, só isso. É tarde, vamos dormir.

É óbvio que filmei o tal papel, vi onde ela guardou e quando ela dormiu fui até a caixinha dela e peguei – toda mulher tem uma caixinha?

Era uma declaração que eu tinha escrito pra ela na época em que éramos namorados e meu pai ficou doente quando estava de férias em Pirassununga. Foi internado na Santa Casa de Misericórdia de Limeira-SP (um abraço, pessoal da Santa Casa!). Era véspera de Ano Novo e eu tive que viajar pra lá às pressas. A Nêga me ligava todo dia.

E estava lá. Estávamos lá, nós dois, naquelas linhas. A minha letra manuscrita horrorosa numa folha de papel ao maço, inteiros, humanos, cúmplices....  Era essa a pergunta da Nêga, não um enigmático “Cadê nós”, mas um específico e pontiagudo “Cadê ESSE nós”.  Ora, entramos em automático. Em favor da sobrevivência, em nome do projeto-família, abdicamos –  eu, principalmente EU, abdiquei – de uma parte do que fui e fomos. Não saberia responder por que, uma década e nós somos outros;  e os nós são outros. São outros nós, outros nós... Mas eu precisava fazer alguma coisa.

- Lemão, cadê aquela folha de ontem? Você pegou, né?

-Peguei.

- Coisa feia, Lemão, mexendo na minha caixinha.

- Nêga, você sabe como Machado de Assis chamava a “Caixa de Pandora”?

-Sei: “Boceta de Pandora”.

- Pois, se você não se lembra, sou seu marido. Donde, tenho todo o direito de mexer na sua boceta.

- Palhaço! Cadê, hein? Me dá!

- Não está comigo.

- Como assim não está com você?! E onde está?

- Está com a Lilian, no Cult Blog, e ela já mandou pro Sérgio. Foi publicado.

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EU DECLARO

Eu declaro firmemente que esse amor existe.
Sob a forma e as condições possíveis, ou necessárias, mas existe.
Declaro também que esse amor é leve como as lágrimas de despedida que nos fazem ver o mundo em mosaicos. E que essas lágrimas se misturam em nossos rostos colados, como se tivessem sido feitas umas para as outras, para esse justo instante, e como se o seu destino fosse desde sempre morrerem espatifadas entre nós, evaporadas pelo calor da nossa saudade-corpo-presente, em meio aos nossos soluços de comovente auto-engano: “vai ficar tudo bem, amor”.
Declaro que este amor é pesado como a chuva de janeiro que encharcou meu tênis, e meus ossos, enquanto eu esperava você ligar embaixo de um telefone público, em frente a um hospital - público - em uma cidade que não era nem sua nem minha, mas que agora é nossa e jamais será a mesma.
Declaro também que todo amor é impossível por natureza e é da natureza humana acreditar no impossível, porque foi assim que saímos da caverna, foi assim que entramos mar afora e navegamos, foi assim que nos atiramos ao espaço e voamos; e foi assim que inventamos um jeito de ver coisas que na verdade não estão à nossa frente.
Declaro finalmente que o meu poeta maior está morto, que o seu cachorro menor está desaparecido, que o nosso pequeno rocamadour ainda não nasceu, que meu temperamento é um horror, que o seu ex-noivo me detesta e que não há nenhuma promessa de felicidade plena para nós.
A única coisa que nos resta é esse amor; e que ninguém ouse nos tirar isso.
Não porque ele seja tudo o que há no mundo, mas porque é o único começo possível diante da tarefa super-humana de expandir as fronteiras de si mesmo.

Te amo,

Lemão da Nêga.

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