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Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com

 

Publicado em 14/08/08

SÁBADO É DIA DE FAXINA LÁ EM CASA
Para o Jorge Luís
 
O fato é que acreditei. Sim, acreditei, aqui estou e por aqui vou ficando – comprei meu modelito classe-média numa liquidação da Oscar Freire.
 
- Nêga, quer ajuda aí?
- Quero: Acorda as crianças e vaza.
- Pedindo assim...
- Lemão!
- Hum?
- Pauzudo.
 
Sinceramente eu não sei o que dizer aos meus filhos. Dois carinhas: Um de oito e outro de seis, cheios de energia, achando que o mundo é uma festa, que escola é legal, que ter uma casa limpa, arrumada e equipada não é nada demais porque ora-todo-mundo-tem, que o importante mesmo é ter o náique-chóquis doze bolhas e o playstation top de linha. Achando que danoninho é um troço que brota dentro da geladeira e dinheiro é uma coisa que só o pai dos outros têm. Não consigo estabelecer um projeto decente pra eles; nada que seja muito melhor do que o que me venderam barato lá atrás, alternativa nenhuma, nada, nada, nada tsc...
 
Na rua são assim, um sucesso:
- Diga lá, Lemão!
- Salve Jorge.
- E os dois galãs aí?
- Caprichei, né? Fala a verdade: Paulo Zulu já era.
 
Ah! Deixa crescer esses dois putos, eu vou falando, errando, acertando e fazendo o que posso do jeito que der, foda-se: Partido Alto é improviso e é do caralho. Não tem o Cacique de Ramos? Pois aqui é com o Cacique de Helmulth que vamos. Eu e meus putinhos – pretos, como se já não lhes bastassem as desgraças supra-raciais – de olhos claros o suficiente pra dispensar o exame de DNA e uma puta confusão que o antecederia.
 
- Sorte deles que puxaram a mãe.
- Ah tá, tá... e os olhos?
- Sorte de novo. E alguma herança tu tinha que deixar né, Lemão?
- Sorte é o caralho rapá, aqui não tem erro não: é porra boa mesmo, é porra boa.
- Ah é? Putz. Liga não Lemão, afinal, pai é quem cria.
- Jorjão?
- Hum.
- Vai dar meia hora de bunda.
 
Mas uma coisa de cada vez. Primeiro é fazer o ciclo fodástico lá de casa retroceder quadro-a-quadro de novo – já explico o que é isso – trazer a Nêga de volta pro quadro bom, rolar a pedra morro acima de novo, mesmo sabendo que o cume é pequeno demais pra ela e que a desinfeliz não se equilibra lá e rola morro abaixo no quadro seguinte, vai Sísifo (der)! Mas é a vida, a vida é assim...
 
Bora voltar lá pra casa, antes de sair pra rua:
- Lemão!
- Que?
- Aproveita ó, troca pra mim.
- Uai, mudou de marca? Ou de tamanho?! Não percebi nada, juro.
- Não, besta, é essa mesma.; só que eu uso COM abas.
- Beleza, tem certeza que dá tempo deu ir lá e voltar?
- Panela na tua cabeça.
- Também te amo.
(Nunca vi mulher nenhuma, nenhuma, nenhuma rir de piada sobre menstruação).
 
Essa Nêga é o diabo, mesmo. Já conheço o processo: primeiro ela é doce feito uma nectarina madura; daí eu, por distração ou machice – sim, não quis usar chauvinismo, acho pedante – devoro a fruta sem antes lhe acariciar a pele, lhe elogiar o cheiro, observar as gotas d´água magicamente estacionadas sobre as suas redondezas, devoro simplesmente, de qualquer jeito, sem poetizar.... Oh céus! Que culpa tenho eu de saber que não há mágica nenhuma na tensão superficial da água? De não ser poeta? Afinal, alguém tem que trabalhar! Eu como, eu como, eu como, eu como, eu como a fruta rubro-doce-quase-negra, muito doce, muito doce, cheia de suco e babo de prazer; me escorre o sumo pelo canto da boca, mancho a camisa que não quero saber quem lavou e, pra encerrar a primeira fase do ciclo fodástico, sem tomar o menor conhecimento lírico da delicadeza da fruta, arroto.
 
- “Menina da Angola que leva o chocalho amarrado na canela/ Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela?”
- Faceira hoje hã?
- Ih bobo.
- Bunduda, vem cá.
- Pára Lemão, ó os meninos ó, vão acordar...
- Calma Nêga gostosa, deixa eu só ver uma coisa aqui:
- Hã?!
- A-háááá!Que calcinha é essa logo de manhã, hein tarada?!
- Huuum? Nem reparei. Lemão, ai Lemão, quieta! Ó os menin... ó.
- Uma rapidinha no banheiro?
- Pááááá-raaaaa Lemão-ô...
- Hã? Hã? Vamu?
- An-han...
 
Em seguida, fruta comida sem poesia, a doçura se torna acre por não ter encontrado em mim ressonância à altura das expectativas; mas isso ainda não é o pior. No máximo derruba minha escala de trepadas mensais de dois dígitos pra um, nenhum grande estrago deveras. Daí arrisco um lirismo tardio pra tentar resgatar a doçura, pó-rém - uma vez  comida a fruta, já era – não dá pra ser lírico com um caroço; inútil, ele tira sarro da sua cara. Ele é duro e se você insistir quebra os dentes. Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe mas ainda assim eu vou dizer: Não há encaixes perfeitos; só encontros plausíveis e gestos triviais comoventes.
 
- Lemão que água fria, credo!
- Você é que vai sair cozida do banho qualquer dia desses.
- Ah não Lemão, diminui isso! Detesto água fria brrrr... Assim, assim tá bom, aêêê, pronto.
- Nêga...
- Fala, tesão.
- Deixa passar xampu no seu cabelo?
 
O pior vem na seqüência: O silêncio da Nêga. Nada me apavora mais, me desconserta mais, me aflige mais do que ver essa Nêga de cara amarrada, sem falar palavra, nem pra xingar, sem cantar, sem dar risada, essa sim é, oh céus, tortura ex-ex-ex-trema e tremo, quem não tremeria? Fazendo isso – não sei se ela sabe; se não sabe intui e se intui não erra – ela me priva da maior alegria que consigo ter interagindo com outro cerumano: Ouvir a risada escandalosa indecente, imoral, pomba-gírica, arreganhada dessa Nêga marrenta que tanto me como-ve. De sorte que, por abstinência de riso lascivo, eu fico atento; espreito-a como um gato amarelo até achar a brecha (conotativo, aqui) daí o bote certeiro, o vem-cá-minha-nega inapelável, a Nêga ainda puta resiste (um tanto bom) mas adianta nada: eu acho a brecha (agora sim, denotativo) e o ciclo fodástico retrocede quadro-a-quadro. Dia seguinte é assim: Ela marrenta – sempre – com cara de brava – charme – me dando patada – normal – e apertando a minha bunda quando eu tô mijando – fi-lha-da-pu-ta.
 
- Depois me enche o saco que eu não tenho pontaria, caralho!
- Não xinga, Lemão.
 
Foda-se, hoje é sábado, é dia de faxina e é ela mesma quem vai limpar tudo sozinha, rindo, cantando e ouvindo Clara Nunes no toco – quadro feliz-da-vida bem posicionado de volta - depois de ter-me ensaboado a pica no banho-a-dois como se fosse parte do corpo dela e não do meu. Oh céus... um homem deveria jamais ter que lavar o próprio pinto. Que delícia.
 
Na rua:
- Como vai a dona Nêga, seu Lemão?
-  Muito bem (comida), obrigado.
 
Isso e a ternura de lavar os cabelos da minha Nêga.
 


Jorjão – meu irmão-mais-velho-que-nunca-tive e tenho há 25 anos – isso não paga esses dois anos que eu não te abraço, mas é de coração. País desinfeliz de grande; vida louca da porra que nos arremessa sem dó pros quintos opostos.
 
Beijo na tua nêga que nem conheço porque sou um puto e não fui ao teu casamento. Você também não veio ao meu, mas eu caso de novo, prometo.
Preocupo-me com tua saúde; da tua proteção preciso sempre.
Salve Jorge!
 
P.S.: Faço isso porque eu sei que tu choras boiolão, rá!
 
Schwartz

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