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Schwartz

Bar Revolto




Apresentação do autor:


"Schwartz não escreve direito porque é engenheiro. Deve a todo mundo: dinheiro, afeto, favores e desculpas. Aceita de bom grado doações desses quatro elementos. Só publica no CultBlog porque é amigo da Lilian Guedes. Se for o caso, reclamem com ela."


walber_schwartz@hotmail.com


 

Publicado em 21/08/08

LONELINESS, SADNESS, WIRELESS (CAPÍTULO 7)
 
Esse bar tá cada dia mais esquisito.
O Batuta deve estar quebrando, não é possível, tanta invenção de moda, meudeus! Primeiro foi esse negócio da mudança de "bar" pra "café"...
 
- "Le Batuté Café", gostou Lemão?
- Afrescalhado pra cacete, mas por mim beleza, só não vai deixar de vender cachaça, né?
- Não, mas agora vou abrir às 4h da tarde e servir cafés especiais com acompanhamentos: croissants, Quiche Lorraine, pâté de Foie gras, canapés, Petit Gateau, crepes...
- E os torresmos?
- Pensando em tirar, Lemão, a cozinha fica empestiada; o cheiro de gordura contamina tudo.
- Foda, hein? Foda...
 
Ok, vá lá, vá lá... o Batuta apesar de parecer o Brutus do Popeye é um cara bastante refinado, professor de Francês formado, foi a Paris em 94 quando o real estava um pra um com o dólar, tem leitura, bom gosto... é um cara cosmopolita, poxa. Eu entendo; tá tentando dar um ar mais sofisticado pra jaula dele, mas que isso aqui tá ficando esquisito, tá.
 
- Batuta, e o samba?
- O samba fica. Mas vai ter mais bossa nova no repertório, o quê que você acha?
- Que você é doido, mas segue em frente. Só me avisa quando não for mais lugar pra mim.
- Que isso, Lemão, você é minha mobília falante!
- Serve uma amarelinha aí.
- Pra já, Nectar do Cerrado?
- Isso, Castanheira.
 
Mas de boteco de samba pra café afrescalhado é uma puta mudança. Ou ele tá vendo algo que eu não tô, ou tá se fudendo em verde e amarelo - mais adequadamente: em "Blue, Blanc et Rouge" (salve Kieslowski!) - e só vai descobrir isso depois que "la vacá tiver idô pro lé brejé".
 
- Batuta, e que troço branco é esse aí em cima da sua cabeça? Tá parecendo um unicórnio, porra...
- Onde, carai?
- Na prateleira aí atrás, ó...
- Ah, isso aqui? É a antena de wireless.
- Antena de wireless...
- É. Pros tecnoadictos, você sabe...
- Quer dizer que agora...
- Sim, a pessoa traz o notebook, senta, ...
- E pode vir curtir a solidão dela aqui junto com todo mundo.
- É... bem isso.
- Tipo: conversar com a pessoa da mesa do lado...
- Nah, nah, nah, nem pensar. Fora de moda, Lemão. A última vez que me lembro que isso aconteceu foi com você e a Nêga.
- Sei, sei... geração tarja-preta.
- Mais uma cachaça?
- Fecha.. Vou pra casa dizer pra Nêga que se existisse wireless há dez anos a gente ainda seria solteiro e feliz; ela estaria virtualmente noiva de um europeu endinheirado e deprimido sem nunca ter dado pra ele e eu estaria me divertindo na webcam com strip teases de mocinhas com distúrbios psiquiátricos.
- Essa é da casa, Lemão.
- Ôôôô-obrigado, Batuta! Eu lhe pague! (Um dia, um dia...)

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